Conversa com doutor

“Hoje aconteceu uma coisa estranha” disse ele, sentado no divã de couro. Toda a decoração tinha um tom bege. O outro sofá, a mesa, a pele do seu doutor…

“Logo quando cheguei no trabalho. Eu cumprimentava as pessoas, mas não via seus rostos, entende?”

“Hum-hum”

“No lugar da face, eu via borrões, somente. Eu não enxergava os olhos ou as feições. Você está me entendendo?”

“Hum-hum” repetia pontualmente

“Eu tinha a impressão de que todos olhavam para mim. Todos no escritório. Meu estômago começou a embrulhar. E tenho certeza de que isso foi real. Aconteceu hoje de manhã. Eu não costumo inventar essas coisas, você sabe. E foi realmente estranho. Muito estranho mesmo…”

Sua reticência gerou um estranho silêncio na sala. Somente o barulho do ar condicionado, e de alguma buzina da cidade, lá fora.

“E depois?”

“Eu fui no banheiro. Pensei que ia vomitar. Na verdade não vomitei, mas fiquei lá parado. Depois eu lavei o rosto e percebi que eu não tinha rosto. Você percebe como isso é estranho, doutor? Eu olhava no espelho mas não via meu rosto. Somente um borrão. Tentei limpar o espelho, mas nada acontecia. Então eu tomei meu remédio, ali mesmo. Dois comprimidos, como o senhor falou.”

“Eu falei?”

“Sim. Falou semana passada”

“Hum”

“Então eu melhorei e voltei a trabalhar. Não acha isso estranho, doutor?”

“Sim…”

Então depois de cerca de um minuto ele se levantou e continuou falando, olhando pela janela.

“Todas essas pessoas lá embaixo. Você acha que são normais? Que pensam, e refletem nas coisas, doutor?”

“Por que diz isso?”

“Minha mãe costuma dizer que a gente é vivo porque pensa. Ela fala que as pessoas que não pensam direito morrem cedo. Diz isso por causa da minha tia avó, que morreu quando ainda era nova, já te contei essa história, doutor?” Disse, esboçando um sorriso

“Sim, acho que já contou”

“Ela atormentava os animais dos sítios vizinhos. Todos eles. A vila sabia que ela era louca. Um dia ela tentou montar num dos búfalos da fazenda.” contava, dando pausas entre pequenos risos.

“E tiveram que juntar os pedaços dela” disse o doutor.

“Como você sabe?”

“Você já contou”

“Hum” exprimiu, estremecido.

E o silêncio retornou. Doutor escrevia alguma coisa no seu pequeno bloco de notas, depois começou a dar batidas na mesa com a ponta dos dedos. Seu paciente ainda olhava pela janela.

“Você trouxe seu remédio?”

“Que remédio?”

“O que está tomando”

“Ah não. Ficou em casa. Ou no serviço. Não sei” respondeu prestando estrita atenção à rua, lá embaixo…