Um problema com o Tempo

Eu tenho um problema com o tempo. E este texto não é sobre conjugação verbal, apesar de eu não me dar muito bem com ela. Também não é sobre minha dificuldade em chegar no horário. Esse é outro texto.

Meu problema com o tempo é: Não consigo mensurar o futuro. Às vezes não consigo nem imaginar que ele existe.

Tá ok, eu aceito sua existência. Tenho vinte e um anos de idade, e sei que vinte e um anos é um número considerável de voltas do planetinha Terra ao redor do Sol, e é preciso o tempo passar para a Terra girar, senão ela não gira, e o tempo não passa. Mas ela girou. Vinte e uma vezes. Meu problema não é com o passado. Você já entendeu isso até aqui. Meu problema é com o futuro. Será que ela vai girar mais vinte e uma? Ninguém sabe. O meu problema é não saber, por exemplo, quanto vale um ano.

Gui tem nove anos de idade. Gui disse que quer ir em casa jogar videogame. Eu disse “Gui, vai em casa sábado” ao que ele me perguntou “quantos dias tem que passar pra chegar sábado?”.

A noção de tempo de Gui me resume.

Não saber quanto tempo precisa passar até chegar o dia de eu entregar aquele livro de 200 páginas é um problemão, entende? Procrastinação é o pior sintoma. Não saber medir o futuro me faz viver num eterno presente. Na minha cabeça limitada temporariamente, não preciso me preocupar com, por exemplo, a morte, ou as contas no fim do mês. O que dificulta muito, já que não sei qual dos dois vai chegar primeiro.

Se as contas no fim do mês chegarem primeiro, é melhor eu parar de enrolar no serviço e voltar a trabalhar agora mesmo. Se a morte chegar primeiro, não sei quanto tempo vai demorar mesmo, então imagino que está tudo bem eu manter aqueles projetos de dez anos atrás na gaveta.

É grave, doutor? Não sei…