Meu caro vizinho

Primeiramente, muito obrigado. Você tem sido um vizinho excelente desde seu casamento, e mudança no bairro. Vocês não brigam até muito tarde, e muito poucas vezes tive que chamar a polícia para resolver a situação. Gosto do barulho de móveis quebrando, especialmente depois das duas da madrugada, pois ajuda a me ambientar nos filmes de ação que passam no Corujão.

Fico realmente agradecido por não terem comprado outra arma desde a primeira vez que receberam visita das viaturas de luzes coloridas, pois a fobia da minha irmã, de morrer vítima de bala perdida, diminuiu desde então.

Sua excelentíssima esposa tem um gosto agradabilíssimo para músicas, exposto geralmente às manhãs de sábado, enquanto arruma a casa. Ao que parece, com orgulho, demonstra o quão eclética é, transitando entre música gospel e axé Salvador anos 2000, e tenho certeza de que todos no bairro agora compartilham do mesmo gosto, ainda mais quando ela se empolga, exibindo todo seu conhecimento da arte do canto.

Vossas animadas festas de fins de semana são, de fato, animadoras. Dentre os moradores da rua, aos domingos, não se fala em outra coisa. Com certeza todos anseiam pelos sábados e feriados figurados por toda a gente que sua casa frequenta.

Gostaria de, por meio desta, lhe descrever um pequeno infortúnio, relacionado à ligação elétrica de nosso poste. Tenho a certeza de que uma pessoa de sua estirpe não o faria de propósito, mas possa tê-lo feito por engano. Explico caso não seja de seu conhecimento: No último mês venho pensando em meios de lhe dizer que nosso poste está conectado sob a mesma força, o que o técnico da companhia de energia chamou simplesmente de “Gato”. Creio não ser certo esse tipo de recurso de ligação elétrica, e não posso arcar com os gastos de seu consumo de energia elétrica além do meu por muito mais tempo.

Espero que entenda minha questão
levantada nesta feita,
Grato.