Bobi

Levei meu autobuddy até a colina, para mostrar para ele o por do sol. Tirei-o da embalagem, li o manual e liguei. As luzes da frente acenderam, ele estava vivo.

– Oi
– Oi, Bobi
– Bobi?
– É o nome que decidi te dar. Você gostou?
– Bobi. Gostei!
– Olhe… – mostrei para ele a vista da colina. A usina, os táxis e aeroplanos, o pôr do sol cinza avermelhado. Eu amo aquele lugar.
– Eu amo este lugar. Costumava vir com minha mãe aqui.
– É magnífico. Eu posso compartilhar com o banco de dados?
– Oi?
– Posso…mostrar…para meus amigos?
– Pode! Espera. Você tem amigos autobuddys?
– Claro! Qual o seu nome?
– Laika.
– E você tem amigos humanos?
– …não. Eu gosto da minha própria companhia
– Mesmo assim, você me comprou.
– Sim. Eu precisava mostrar para alguém essa vista.
– Muito bem…Laika. Bonito nome, aliás.
– Obrigada

Foi importante para mim, sabe? Meu sonho era fazer um amigo, e levá-lo àquele lugarzinho específico da colina. Não importa se era um…computador.

Voltamos para casa conversando
– Quantos anos você tem, Laika?
– 12, mas mês que vem vou fazer treze .
– Você fala como se fosse um problema a ser resolvido
– Como assim?
– “Tenho doze, mas mês que vem farei treze, e tudo será perfeito” – me imitou.
– Ah sim. Você fala complicado, às vezes.
– Okay – disse ele em uma voz mais robótica
– Muita coisa aconteceu esse ano. Estou cansada de ter doze.
– E eu to cansado de ser um robô!
– Haha! Isso você não pode mudar.
– Mas posso me adaptar às circunstâncias, desenvolver e melhorar. Mudar. Vocês humanos nos ensinam a fazer isso.
– Desenvolver e melhorar. Gostei. Vou anotar isso no meu diário.
– Você tem um diário?
– Sim, tenho. E não, não vou deixar você ler.
– Eu posso criar um diário pra você!
– Eu tenho um diário de papel, Bobi – eu disse, suspirando – tenho canetas em casa, e gosto de escrever coisas.
– Interessante.
– Interessante? Não vai falar mais nada?
– Como assim?
– Pras outras garotas da minha sala, eu sou a estranha do papel. Com a mochila cheia de livros, e essas coisas…
– Eu não faço julgamentos.
– Você é legal, Bobi.
– Não sou programado para ser legal, mas, obrigado!
– De nada! Afinal você também pode “desenvolver e melhorar”, não é
– Sim, eu posso.
Ok, agora eu tenho que desligar…