Guerra do Papel

Aconteceu gradativamente, como toda extinção acontece. Você a vê chegando como “ah, é só uma onda que pegou um pouco mais de vento” e de repente ela está no meio da sua cidade levando carros, prédios e você junto.

Começou com um grupo de estudiosos criando o alfabeto. Não foi muito aceito no começo, mas depois de um tempo, e uma boa propaganda, funcionou. Algumas gerações depois, quase todos sabiam ler e escrever.

Mas o problema é que a linguagem, como todo começo, era rudimentar e pouco prática. Os sinais de acentuação, por exemplo, eram todos escritos por extenso, e não havia um símbolo único para exclamação, ou ponto final.

O maior problema, antes disso, é que para muitos isso não era um problema. Algumas pessoas que não gostaram da ideia de se ter um alfabeto acabaram aprovando a ideia de abolir todos os sinais por extenso, substituindo-os por símbolos únicos, e isso irritou muito a indústria de editores e diagramadores. Logo eles começaram a reclamar com seus chefes, argumentando que menos caracteres significaria menos páginas para cobrar do produto final. Quem ficou mais irritado ainda com essa história toda foram os produtores de papel, que ganhariam menos dinheiro na venda que faziam pras gráficas. Os tipógrafos estavam de boa.

Tudo virou um caos quando os produtores das máquinas de escrever começaram a produzir teclados com a nova acentuação, e isso irritou ainda mais aqueles que já estavam irritados, iniciando o que, gerações depois, seria chamada de Guerra do Papel.
Milhares de livros com a norma antiga foram queimados na rua. Algumas fábricas de tipógrafos foram “[…] acidentalmente incendiadas!*”, e a notícia saiu com um grande sinal de exclamação com uma nota de rodapé do jornal dizendo “não temos nenhuma posição politica a respeito de normas de acentuação”, o que deixou os fabricantes de tipos extremamente irritados, levando-os a queimarem também alguns escritórios de jornais. Sem saber muito o que estavam fazendo, cada um tomou seu lado na história, e o defendeu com unhas e dentes.

Cientistas, colunistas de jornal, donos de gráficas e editoras, todos acabaram se matando, restando somente os idosos da geração que não sabiam ler – e muito provavelmente também não conseguiam trocar suas fraldas sozinhos.

Como essa história sobreviveu até hoje? É claro…artistas plásticos fizeram vários desenhos representando a Guerra do Papel, e não ganharam nada com isso, além da leve impressão de serem um pouco melhores do que os escritores. Os escritores, por sua vez, tinham se matado numa guerra patriótica pela linguagem, e estavam bem por se sentirem mártires de alguma coisa.

Depois de toda a guerra, e a extinção completa dessa raça primitiva, o planeta voltou a crescer, e ficou tudo numa boa pelos próximos trinta bilhões de anos…