Abrindo a torneira

Minha editora chefe foi muito clara e resoluta ao dizer: “faça mais textos assim” e eu me pego pensando nessa frase por quase uma hora.

Primeiro, porque, até então, eu não tinha consciência de que eu podia fazer textos assim. Pra mim, eu era somente um entregador de ideias. Elas apareciam na minha mente, e
a minha tarefa era transportá-las pro papel e esperar que fizessem sentido. Nem sempre fazem. Às vezes, quando fazem, eu mostro pra alguém, no caso, a minha editora chefe – que só ficou sabendo que é minha editora chefe ao ler este texto.

Segundo, porque, terrivelmente, eu não tenho um método. Não consigo seguir um roteiro de pensamento. Um “way of think”, como dizem os americanos (que só falam assim porque são americanos. Se fossem brasileiros diriam “jeito de pensar”).

Então a maior parte da minha hora de pensamento se decorreu a partir da seguinte
frase: Eu não tenho um método.

Isso é bom? É ruim? Eu poderia ser demitido de uma agência por causa disso? Provavelmente sim e não para todas as anteriores.

Todo meu processo criativo acontece tão instintivamente quanto você dar uma bolinha
para um cachorro. Eu começo, mas nunca sei o que pode acontecer depois. Se a bolinha vai ficar inteira, se ela vai voltar para mim, ou se eu vou acabar mordido no final das
contas.

Dê um lápis e um papel para uma criança, e você vai entender perfeitamente o
que estou falando. Não existe um processo racional no jeito instintivo de criar. Não
existe nem planejamento.

É mais ou menos assim que acontece:

Eu abro a torneira, as ideias caem. Tão fluidas quanto esse texto me parece ser. Até que, por fim, a pia está cheia de água, e começa a transbordar, e é melhor pegar um pano e limpar essa bagunça antes que a sua mãe veja.

No final dessa quase uma hora de pensamento, eu comecei a repensar em tudo desde o começo, num rápido flashback. Mas, desta vez, eu estava analisando tudo o que tinha pensado, tentando identificar um padrão. Me senti atrás de uma moita, observando os métodos de ataque de algum bicho, preparando um documentário do Discovery. Eu precisava entender como a água flui pelos canos até encher minha pia. Precisava estudar meu método, como se eu tivesse um. Ainda é tudo muito caótico. Falta um roteiro, nesse documentário. Mas estou trabalhando nisso.

Eu ainda estou estudando, minha querida editora chefe. Um dia, talvez, eu consiga entender como faço textos assim para, talvez, quem sabe, fazer mais textos assim.