Atropelada

Parece que fui atropelada.

O que aconteceu? Eu estava descendo a rua. Estava falando com Carlinhos. Cadê meu celular?

“Cadê meu celular?”

Ai que idiota. Eu disse isso em voz alta. Se eu fui mesmo atropelada, isso foi uma coisa terrível de se dizer. É melhor eu me levantar. Ai, meu braço! Isso aqui é sangue, no asfalto. Será que é meu, esse sangue? Tem nas minhas mãos, no chão…Ainda está tudo meio borrado, estou ficando zonza.

Pronto, fiquei de pé. Ai que dor! “Aaai!” Não dá. Deitei de novo. Ali, meu celular. Que horas são? Não alcanço. Ai meu pé. Ele está… “Aaaai!” está fora do lugar. Vou colocar ele no lugar. Não, não vou. Esse senhor se aproximando..
– Menina!!
Não preciso cumprimentar, né? Não sei, fui atropelada. Não preciso ser educada. É.
– AAaaaai! Não consigo!
Ele não viu meu pé? Que idiota! Tá sangrando. Era pra ter um carro amassado aqui. Merda, minha perna ta doendo. Tem uns carros parando em volta. Isso vai do-er a-a-ai. Eu me arrasto, pego o celular. Sangue na tela. Merda, que dia. Ouço um abafado, pessoas falando. “O cara fugiu”. Um zunido infernal. Preciso sair do meio da rua. O senhor chega mais perto. A voz dele abafada.

Desmaiei.

Ai! Fui mesmo atropelada. Uma luz no meu olho esquerdo, direito. Olho pra um lado, meu ouvido dói. Para o outro. Estou numa maca. Numa ambulância. Ela tá correndo. Não consigo mexer o pescoço.
– Calma, Carol. Você foi vítima de um atropelamento. Estamos te encaminhando para o centro de emergências mais próximo.
Escuto meio abafado, parece que estou ficando surda. Mas, posto desta forma, parece que tudo vai se resolver.
Alguém avisa Carlinhos que eu não vou estar na festa…