Minha máquina de escrever

Ganhei uma máquina de escrever. É estranha e confusa a sensação nostálgica de se ter uma máquina que foi tão importante em um tempo que você não viveu. Mas quase posso sentir toda a relevância histórica dela ao datilografar um texto qualquer. A fonte e o espaçamento entre as palavras traduz toda uma época de escritórios barulhentos e cursos de datilografia, e crianças que amavam brincar com essas máquinas sem nem saber o que escrever.

Ela tem personalidade. Quase fala. Viveu mais tempo que eu. E, ao falar de vida, é isso mesmo que quero dizer. Foi passada de uma geração para outra. Trabalhou por uns dez anos em escritório. Se aposentou e ficou parada numa garagem tomando poeira até mês passado. Quando ela chegou eu me arrepiei todo. Era o passado ali na varanda de casa, num monte de pecinhas de metal amontoadas, que fariam textos! Escreveriam história. Hoje ela escreve versos e poemas. Pedaços de contos que talvez um dia vou terminar.

Cada palavra tem que ser muito bem pensada, afinal nela não existe backspace. Antes, no papel ou no Word, eu expunha minhas idéias e exprimia minhas palavras. Com ela eu converso. Ela reflete e me fala de volta. O barulho das teclas imprimindo a fita de tinta no papel é como o som das letras marcadas na eternidade.

Não é só sobre ser hipster vintage e cool. É ter um pedaço da historia aqui no meu quarto. É sobre dar valor que cada letra de um texto merece e tem que ter. É a saudade de um tempo que eu nem vivi.