Batalha Mental

Projeto toda a força do meu pensamento para a almofada, em cima da poltrona. O objetivo é que ela levite no ar, e se mova até onde estou, na cama. Uma distância de um metro e meio. Juto com toda a força de pensamento, também desloco toda minha criatividade, experiência com páginas e páginas de quadrinhos. Imagino o Magneto, com seus metais. A Jean Grey, com qualquer coisa que ela tentasse mover com a mente. O Professor X que, mesmo tendo a mente mais poderosa do planeta nunca conseguiu levantar uma almofada. Penso na maestria do mestre Yoda ao levantar sem a menor dificuldade uma X-wing. A almofada não se move.

Provavelmente movi, com a força do pensamento, algum meteorito há bilhões de anos luz daqui, que vai atingir a terra em cheio numa civilização futura mais careta. O universo me agradece, mas não. Quero mover essa almofada até mim para, quem sabe, conseguir ficar um pouco mais confortável e dormir. Talvez seja o barulho do vizinho. Minha próxima interação mutante pode ser tentar desligar rádios que toquem música ruim. Deve se exigir pouca força mental para isso.

A almofada não se move.

Me lembro do conselho do professor Xavier: Deixe sua mente limpa. Eu devo imaginar a almofada se levantando e se dirigindo até mim, esperando que minha imaginação e a realidade resolvam fazer amizade. Já faz bem mais de dez anos que sou criança, e isso nunca aconteceu. Estou tentando com a almofada porque ela é leve, é branca, portanto não tem tantos detalhes pro universo renderizar. E porque está a menos de dois metros de mim. O Universo…ele podia dar uma ajuda. Acontecia, e eu não falava pra ninguém. Guardava só pra mim. Mas não.

A almofada continua lá.

De repente, é claro, algo realmente acontece. A almofada se move, e sai do lugar. Sou eu esticando o braço para tentar puxá-la sem precisar levantar e, falhando miseravelmente, dou um tapa fazendo-a cair no chão. Ela ainda está há um metro e meio de distância.

A almofada se moveu, e agora está rindo da minha cara.

O universo está rindo da minha cara. Se você estivesse vendo essa cena, ao invés de estar lendo essa crônica besta, estaria rindo da minha cara, caro leitor. Mas não. A civilização humana mais careta do futuro não está achando nem um pouco de graça nessa história toda.

Me levanto, pego a almofada, ligo o ventilador e volto a deitar. Hoje não é um bom dia para se descobrir Super Herói. Vou continuar destruindo civilizações futuras, e sonhos de uma jovem criança de dentro de mim.