Sequestro

Ele está lendo jornal na sala. O celular toca:
– Alô Roberta
– É o seguinte, eu tô com a Roberta aqui…
– tu tu tu – desligou

Toca de novo. Ele atende:

– Olha, Roberta, se você quer chamar atenção…
– Não desliga. Marcelo, eu tô aqui com a Roberta. A gente seq…
– Ah, que legal, cara! Ela já está pegando geral, e você ligou só pra me avisar…
– Marcelo! Marcelo, eles não estão de brincadeira – ele ouve a voz da Marcela ao fundo
– Agora você tá chorando, Roberta? Vai dar uma de arrependida?
– Quem é, pai? – chega o filho na sala
– A sua mãe. Toma, fala com ela aqui. Ela tá com o “novo namorado” dela – fazendo aspas no ar, com os dedos.
– Mãe? Oi mãe. Mãe? Ta chiando…
– Me dá esse telefone, vai arrumar seu quarto
– A mãe tá possuída? Ela tá com uma voz grossa! – o pai toma o telefone da mão dele.
– Me dá isso aqui. Roberta, quer parar de brincadeira? Você ta assustando seu filho.
– Aqui não é a Roberta
– Oi?! Filho, vai brincar, vai. Quem é?
– É o seguinte, vai me deixar falar agora? – diz o moço do outro lado.
– Ta. Pode falar.
– A gente tá com a Roberta aqui. Ela foi sequestrada. Cinquenta mil em dinheiro, e a Roberta tá livre.
– Pô, cara..assim tu me quebra as perna. Posso falar com a Roberta?
– Claro que não, cara! Tá achando que isso aqui é o quê?!
– Um sequestro. Tá, entendi – silêncio – mas assim… Se, de repente, eu não pago os cinquenta mil. O que acontece com ela?
– Ela morre. A gente desova ela no córrego da Emílio Pacheco. Boca cheia de formiga, as mão amarrada pra trás.
– Caramba. Pra vocês compensa, assim?
– Uhum.
– Poxa. Nem pensaria mais a respeito? Tipo, deixar ela viva…
– A gente ainda pode negociar.
– Então. Até tava pra te falar isso, mas não deixa a Roberta saber que te contei… É que a gente tá com uns problemas no casamento, sabe, cara? Já não tá dando certo há um tempo, ela é meio ciumenta, às vezes dá umas crises de loucura. Não sei se ela te falou, mas ela já se mudou daqui de casa. As coisas estão difíceis aqui, sabe…
– Sim, sei como é…
– Então. Até pensando aqui, não sei se compensa pra mim, entende? Cinquenta mil. Por um casamento que já ta acabando… Cê tá me entendendo?
– Não cara. Não faz isso. Pô, pensa no Wallace. Como é que esse moleque vai crescer sem ter uma mãe, tendeu? Que estabilidade tu vai dar pra essa criança? E outra: Quinze anos de casado, meu Brow. Quinze anos tu não joga fora assim não, tá ligado. Leva ela pra jantar. Pô, paga umas coisinha maneira. Vai dar tudo certo, cara…
– Hum. Não sei, não. Vocês podem tentar ligar pra mãe dela, sei lá…
– Olha, tava até pra te falar aqui, mas não conta pra ninguém não. Eu to tendo que fechar esse negócio contigo hoje mesmo, cumpadi. Meu chefe ta aqui P da vida porque teve que devolver nego semana passada. Lembra da galera jogada no parque? Passou no jornal quinta.
– Lembro. Foram vocês, é?
– Trabalho de profissa. Agora, o pessoal da área de sequestro tá trabalhando duro. Se eu não fecho essa contigo minha família tá na mira, cara. Trampar numa firma de sequestro é pressão todo dia, meu irmão. Quebra essa pra nóis…

Silêncio.

– Cinquenta mil, é?
– Cinquenta
– Quarenta e cinco.
– Cinquenta mil fechado em dinheiro vivo
– Numa maleta?
– Senão não tem volta, cara.
– Você tá falando mas, pra mim, isso não é negociar.
– Segura essa aí, que vou ver com meu chefe…

Ele espera. Música de elevador.

– Aí, fechando aqui só pra tu: quarenta mil.
– Quarenta mil. Beleza. Aceita cartão?
– Segura aí na linha que vou passar pro departamento…