Restos de vida

A luz do corredor projeta uma silhueta na sala escura conforme eu abro a porta. Não é nenhum filme de terror. A vida não parece com essas coisas. Então fecho a porta e, daqui de dentro, o mundo  fora some com seus monstros. O silêncio e o escuro nos segundos que se seguem são uma descarga de todos os pesos que carrego nas costas. Se esvaem como um respiro profundo. Ligo a luz e a sala se ilumina, revelando restos de pizza na mesa de centro, um sofá marcado de quem passou a madrugada assistindo TV ou jogando um jogo muito melhor do que a própria vida. De novo aquela dor de cabeça ameaça aparecer, dá as caras no canto da porta e some. Vai embora. Ela demora a vir e quando virá, eu sei que virá, será a pior das enxaquecas.

Respiro fundo, mas agora é como um suspiro. Arrumar a bagunça, lavar a louça que empilha dias de pizza, pratos e copos sujos com a gordura e açúcar que não se atreveram a descer ao meu estômago. Depois tomar banho, adiantar o serviço de amanhã, preparar a roupa e os sapatos, fazer aquela planilha, escrever outro texto – ah é, faz dias que não escrevo outro texto – e dormir cedo para acordar disposto. A lista de tarefas começa a pesar, forçando aquela dor de cabeça a voltar, e se instalar com leves pontadas agudas de incômodo – mais incômodo do que dor.

Sim, a vida é um incômodo também.

Ela avança para o estágio de causar uma dor atrás dos olhos, das que costumo sentir no outono. Eu penso nisso tudo, mas ainda não saí de frente à porta e ali mesmo verifico no meu celular: Nenhum e-mail, mensagem ou ligação. O mundo ficou mesmo lá fora.

Daqui caminho até a pia, são sete passos contando o pulo por cima da caixa de pizza, tomo uma aspirina, na segunda gaveta, venho pro sofá e ligo a tevê. Preciso dormir cedo para trabalhar. Preciso trabalhar para viver. Mas antes de pensar nisso o remédio faz efeito e cochilo sobre restos de fandangos.