Um inglês, um carioca

– Hey! Psiu!
– Hãn?
– Aqui em cima, ó
– Onde?
– Na cômoda
– Ah, oi! Não tinha te visto aí
– É..ele já está te terminando?
– O quê?
– Nosso dono. Ele está lendo você, não está? Tá terminando?
– Ah sim. Tá sim. Faltam umas 30 páginas. Espera. Quem é você?
– Eu sou o próximo livro que ele vai ler
– E por isso você está aí em cima?
– Isso. Você sabe pra onde você vai depois?
– Não. Como assim “depois”?
– Depois que você já for um livro lido
– Não
– Você é mesmo novo por aqui. Olha, ele te deixa aí no criado mudo até te ler todinho. Depois você vai para a estante
– Estante?
– Estante. Lá estão todos os livros que ele já leu, e alguns que ainda não leu.
– Tem muitos livros lá?
– Tem alguns. Mas nosso dono queria que tivesse mais
– Puxa…
– É muito legal. Eu acabei de vir de lá
– Você não é livro novo?
– Não. Ele me lê todo ano. Eu e meus irmãos viemos pra cá
– Hum..irmãos?
– Sim, sou uma saga. Uma trilogia de cinco…
– Sei.
– Ele só te leu uma vez, né? Depois vai te levar pra estante.
– Hum…
– Se você ficar na prateleira de cima, procure pelo Dom Casmurro. A galera lá adora ele
– É?
– É..apesar dele não ser muito sociável, sabe. Ele é dos mais antigos por lá, e nem todo mundo entende ele
– Ele não é engraçado?
– É sim. Muito engraçado..quem escreveu ele foi Machado de Assis
– Machado…
– É, de Assis. Eu vi que nosso dono riu muito de você. Você é engraçado?
– Ah, mais ou menos. Quer dizer..
– Seu nome é muito engraçado
– Obrigado.
– É meio inglês, meio português, né?
– Sim, essa é a ideia…
– Eu e meus irmãos somos muito engraçados.
– É?
– Sim, somos meio antigos nisso de ser engraçado
– Eu sou bem novo. Saí ano retrasado.
– Hum, sei. De onde você vem?
– Do Rio.
– Onde?
– Rio de Janeiro. Na verdade minha editora é em São Paulo. O escritor é do Rio. Esse que está aqui na capa…
– Sei
– E você?
– Eu venho de Londres. Bom, meu escritor era de Londres. A editora é de São Paulo também.
– Era? Ele se mudou?
– Sim. Bom, na verdade morreu.
– Aah…
[Silêncio]
– Eu queria dizer que ele foi pra um lugar melhor, ou alguma coisa assim..mas é que o cara que me escreveu é ateu, então…
– Ah, o meu também era.
– Então tudo bem. Qual é o seu nome?
– Até Mais, e Obrigado pelos Peixes
– O quê?
– É, todo mundo tem essa reação. Eu sou o penúltimo dos meus irmãos, e meu nome só faz sentido para quem já le…
– Olha, o dono está vindo. Acho que ele vai terminar de me ler.
– Vai lá. Tchau!
– Até mais!
– …E Obrigado pelos Peixes!