Alfredo e seus amigos

– Você está bem?
– Sim sim, estou. Bem…eu estou…estou bem.
– Você tem conversado bastante na cela. Conseguiu fazer amigos por lá?

Eu tenho amigos, eles estão sempre comigo. Mas não tenho como provar. Não, eu não tenho como provar. Não. Mas eles são reais, eu converso com eles, sei da vida deles e escuto. Eu escuto todos eles falando. Não posso contar, e eles não vão acreditar.

– Não – respondo. Não olho diretamente nos olhos, eles vão pensar que estou mentindo
– Não? – ele se aproxima e olho nos olhos dele, senão eles vão pensar que estou mentindo.
– Sim. Eu tenho amigos agora – forço um sorriso, ele não responde, acho que o clima tá estranho.

Eu tenho amigos. Sete amigos, conheço todos eles. Tem Alfredo, é o mais legal de todos, ele me compra drinques e conversa comigo. Alfredo é fofo, gosto de abraçar ele quando as coisas não estão boas. Tem o Fellipo, o italiano babaca. Só fala da fortuna dele mas nunca me paga nada. Giancanaro, o outro italiano bacana. A gente dá umas risadas juntos. Tem o russo, que ninguém sabe o nome até agora. Ele diz que seu nome não pode ser pronunciado na língua de maricas, e diz tudo com aquele maldito sotaque.

– César? – ele chama minha atenção – Quer me contar sobre seus amigos?
César? Porque ele me chama de César? ele move o segundo peão uma casa pra frente. Ele acha que eu sou idiota
– Eles me ajudam a conquistar a garota do bar
– Ah é?
– Siim, a garota. Ela é bonita – movo meu último peão duas casas pra frente
– E quem são esses seus amigos?
– Você não conhece! – eu grito. Só percebo depois que gritei. Limpo a garganta, me acalmo – Não. Não sabe quem são eles. Você conhece o Alfredo?

Ele move o bispo. Quer tirar com a minha cara.

– Alfredo? …nunca ouvi falar. Com quem ele se parece?

Sinto uma tontura, acho que vou desmaiar. Tanto tempo juntos, e não sei com quem Alfredo se parece. Ele é tão legal. Comemos amendoim enquanto assistimos jogo. Nunca olhei pra sua face.

– Com você. Alfredo se parece com você
– E você lembra meu nome?
A tontura para. Movo minha torre.
Você é Jorge. Eu conheço você, Jorge, e você não vai ganhar dessa vez.
– Jorge
– Você tem quantos amigos, César?
De novo esse nome. Por que César? Jorge, seu ordinário
– Sete. Somos em oito amigos. Praticamente inseparáveis. – Ele move o cavalo

Movo meu peão.

– Saímos toda noite para beber – continuo
– Você não pode sair daqui, César – ele move o bispo – Eles não deixam.

Ele tira aquela maldita maleta branca. Se eu pudesse, queimaria ele, junto com a maleta branca e aqueles papéis malditos.

– Eu posso sair sim – movo o cavalo

Jorge remove o elástico com toda a calma. Parece estar querendo me irritar. Eu não quero me irritar.

– Aqui – ele me entrega um papel – diz que você pode sair se melhorar, em cinco meses.
Eu rasgo o papel em uma pequena tira e ponho na boca. tem um gosto amargo, e eu mastigo. Cuspo na cara dele
– Eu saio quando eu quiser! – grito. continuo rasgando aquele maldito…
– Você não precisa fazer isso, César!
– Para de me chamar de César! Não sou César! – sem perceber, viro a mesa e as peças se espalham pela sala. Os papéis voam da maleta – Eu não quero ficar nesse lugar! Seu bando de idiotas! Idiotas! Russo! Russo!

Escuto um click. É a porta se abrindo, e os dois dos moços dos coletes pretos se aproximando. Eu pisco, e Jorge não está mais na minha frente. Nem mesmo o xadrez, ou os papéis. Sinto um golpe na cabeça e tudo o que escuto é “calma, Alfredo. Calma. shhh, quietinho“. Eles injetam algo na minha veia, e agora eu posso me encontrar com meus amigos.

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